mesmo que me alcançasse, eu ainda estaria do outro lado da porta. lembra, eu encostei um dia a orelha na madeira fria e esperei você me dizer aquelas palavras bonitas. depois trocamos de lugar, e eu não consegui dizer nada.
você ficou esperando uma resposta, como se precisasse sanar a sede tão seca que pingava poeira por baixo da porta. mas não veio nada, nenhuma palavra doce ou amarga, nenhum docinho de sussurros.
eu também, por favor, não me veja como alguém inescrupuloso, soltei uma lágrima. rapidamente (em questão de segundos, tanta coisa já havia se formado e se consolidando como verdade universal em minha mente), abaixei-me e olhei pela frestra: sua mão apertando seu pé, o pulso retido.
uma folha em branco e um lápis passaram por baixo da porta, fiquei sem reação. imediatamente, e eu sabia que a resposta deveria ser imediata, desenhei um ponto de interrogação grande e devolvi.
escutei você levantar e... bater na porta. bateu incontáveis vezes, com os braços e com a ponta afiada do lápis.
eu não podia abrir, era uma porta sem chave (ou eu não queria que houvesse alguma).
depois de um tempo, você desistiu. eu escorreguei o corpo na parede até cair estatelado no chão. vi os seus dedinhos pela festra, as unhas roídas e um pedaço do papel amassado.
corri a mão até encostar na sua, mas você a tirou mal meu corpo se debruçou em procura do seu.
o papel ainda estava lá.
puxei-o com raiva para perto de mim e o abri. do meu ponto de interrogação, havia o desenho de uma flor linda, cheia de folhas e espinhos.
escrevi uma palavra no papel e o devolvi para o outro lado da porta que nunca cheguei a conhecer.
mas o tempo o assoprou de volta e destruiu a porta em uma parede.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
foilá.
você me deu o ombro e disse que eu podia chorar. chora devagar, chora, deixa o sentimento passear pelo seu rosto e pousar levemente, tal como pássaro, no meu corpo já cansado. as lágrimas sempre me traíram, mudavam de lado fácil, sem perguntar se eu queria expor a minha fotografia.
e foi isso que, abaixando as asas, deixei cair no seu colo. um desenho colorido, da cor dos olhos que refletem a poça d'água cheinha de orvalho.
o que é isso? - você perguntou, engraçado.
é o que sinto. um embaralhado de cores e formas sem explicação que pintam as minhas veias sem deixar espaço para um arco-íris simétrico aparecer. na verdade, as cores sangram entre si, se destroem e lutam para me projetar, -disforme-, no pedacinho de papel.
naquele momento, eu vi suas mãos se distraírem e largarem o papel. se eu não estivesse ali (mas como não poderia estar...?), talvez você deixasse a folha de papel se tornar folha seca de outono e a colocasse no canto do quintal onde pudesse juntar outras mil, a varrer para a rua.
ao invés, você apenas me apoiou na mesinha de madeira e ficou durante um longo tempo olhando o violinista tocar. tinha medo de ser o que realmente queria ser - fingia.
vi as cores se desmanchando, como se chorassem, a pedir um pincel que as contornasse. você me disse que não sabia pintar. eu, novamente, chorei.
devagar, como você me pediu, peguei a folha das suas mãos e fui embora. você continuou escutando a música linda, meu deus como era realmente bela!, e só sentiu o sopro de outono que eu deixava na casa.
saí pela porta e fui me deixando misturar à música que ainda tocava, evitando tornar-me partitura.
e foi isso que, abaixando as asas, deixei cair no seu colo. um desenho colorido, da cor dos olhos que refletem a poça d'água cheinha de orvalho.
o que é isso? - você perguntou, engraçado.
é o que sinto. um embaralhado de cores e formas sem explicação que pintam as minhas veias sem deixar espaço para um arco-íris simétrico aparecer. na verdade, as cores sangram entre si, se destroem e lutam para me projetar, -disforme-, no pedacinho de papel.
naquele momento, eu vi suas mãos se distraírem e largarem o papel. se eu não estivesse ali (mas como não poderia estar...?), talvez você deixasse a folha de papel se tornar folha seca de outono e a colocasse no canto do quintal onde pudesse juntar outras mil, a varrer para a rua.
ao invés, você apenas me apoiou na mesinha de madeira e ficou durante um longo tempo olhando o violinista tocar. tinha medo de ser o que realmente queria ser - fingia.
vi as cores se desmanchando, como se chorassem, a pedir um pincel que as contornasse. você me disse que não sabia pintar. eu, novamente, chorei.
devagar, como você me pediu, peguei a folha das suas mãos e fui embora. você continuou escutando a música linda, meu deus como era realmente bela!, e só sentiu o sopro de outono que eu deixava na casa.
saí pela porta e fui me deixando misturar à música que ainda tocava, evitando tornar-me partitura.
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