quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

foilá.

você me deu o ombro e disse que eu podia chorar. chora devagar, chora, deixa o sentimento passear pelo seu rosto e pousar levemente, tal como pássaro, no meu corpo já cansado. as lágrimas sempre me traíram, mudavam de lado fácil, sem perguntar se eu queria expor a minha fotografia.
e foi isso que, abaixando as asas, deixei cair no seu colo. um desenho colorido, da cor dos olhos que refletem a poça d'água cheinha de orvalho.
o que é isso? - você perguntou, engraçado.
é o que sinto. um embaralhado de cores e formas sem explicação que pintam as minhas veias sem deixar espaço para um arco-íris simétrico aparecer. na verdade, as cores sangram entre si, se destroem e lutam para me projetar, -disforme-, no pedacinho de papel.

naquele momento, eu vi suas mãos se distraírem e largarem o papel. se eu não estivesse ali (mas como não poderia estar...?), talvez você deixasse a folha de papel se tornar folha seca de outono e a colocasse no canto do quintal onde pudesse juntar outras mil, a varrer para a rua.
ao invés, você apenas me apoiou na mesinha de madeira e ficou durante um longo tempo olhando o violinista tocar. tinha medo de ser o que realmente queria ser - fingia.
vi as cores se desmanchando, como se chorassem, a pedir um pincel que as contornasse. você me disse que não sabia pintar. eu, novamente, chorei.

devagar, como você me pediu, peguei a folha das suas mãos e fui embora. você continuou escutando a música linda, meu deus como era realmente bela!, e só sentiu o sopro de outono que eu deixava na casa.
saí pela porta e fui me deixando misturar à música que ainda tocava, evitando tornar-me partitura.

Um comentário:

  1. Meu deus, vc obviamente possui um dom poético! ^^
    que lindo pri, muito triste, mas lindo.
    Eu gostei.

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